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terça-feira, 13 de setembro de 2016

Bacia das Almas

bacias das águas
               das terras
                   das almas
enchem ou esvaziam os corpos
confome o sentimento e a razão:
rios de intenção

domingo, 4 de setembro de 2016

Sertanejo Perfumado


Em tom sarcástico, disse-me o sulista
que sertanejo quando sobe na vida
compra sabonete Phebo para marcar a virada
o fim das vagas magras
Toda vez que quero saber aonde vai dar um caminho
lavo o rosto com o sabonete de meu pai

Sertanejo que já foi para o andar de cima
na memória o cheiro da tangerina encardido na pele
o cravo mascado na boca de bom hálito
Por onde passava deixava o perfume da vitória da alma
Na vida dos outros, no mundo, no turbilhão das cidades
onde os sonhos de menino podem não achar caminho
os perfumes de meu pai lembram-me do essencial

O aroma da felicidade aprendi a reconhecer
ao cheirar o cangote de minha mãe
Uma sertaneja prodiga em cheiros e aromas
como este do cuscuz de milho que vem lá da cozinha
exalando seu chamado ancestral

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Envelheçam

Morreu mais um e morreu mais um
e aquele lá morreu também
E o tal que aparecia demais na TV
se foi e não deixou ninguém 
Foi-se sem avisar

Deixou-nos á envelhecer sozinhos
entregues ao tempo cruel das cidades imortais
que ficarão para sempre depois de nós
Aquele lá era o embaixador do bom humor
Aquele outro prefeito do lugar e guardião da alegria

O que farão as crianças de agora
abandonadas pela sabedoria dos que já foram embora?
Com quem contarão?
Consigo mesmo, diria Nelson Rodrigues:
“Envelheçam, envelheçam, envelheçam”

Para que antes de morrer façam o uso-fruto
de tudo que foi plantado
sem garantia alguma que não será arrancado
Envelheçam para que possam ir além de vocês mesmos
e daqueles que já foram para o além

Menino, coragem!


Do início ao fim
do polo sul ao norte
em voltas intermináveis e genéticas
Yin e yang em frenéticas polarizações
No adulto e suas contas
o menino curioso sonha

O menino cura!
A pulsação da curiosidade acelera o pulso
O menino não sabe que sabe
segue o coração que sabe 
Músculo que contrai o passado no presente
e arremessa o menino no futuro

Bússola, astrolábio, biruta dos ventos
gps cravado no peito
busca até o fim do passado a chama
busca a maquina do tempo
que o transporta por inumeráveis aventuras
do fim até o começo

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Inominável

Se cada um fala do mundo
como se todo o mundo falado fosse
de um, de uns, outros e todos
Toda lingua nomearia o arco-iris
do jeito como falam as cores
Multiplicam-se as trocas 
Escambos de palavras sonoras 
Semeiam-se conflitos sobre a essencia das coisas
Sela-se a paz com uvas e vinhos
Cada lingua particular destino de amar
Inominável desejo de nomear

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Neandertais

Meu crânio é duro
É osso e guarda
substancia que perpassa
vasos, tubos, túneis
cavidades, conexões intermináveis
fazem sentido
fazem a vida ou quase
caminhando comigo
muito mais antigos que meus sonhos
estes ossos ancestrais neandertais
é bossa de um corpo
que me leva para chupar picolé
que me lê Shakespeare
e poemas que tocam o coração
Osso ainda que mole
oco que me carrega
sabe muito de carregar
sabe muito de viver
sabe até amar por instinto
essa maravilha
caixa de pandora
mistério que cria
criatura que alumia


sexta-feira, 10 de junho de 2016

Enorme esforço

enorme esforço
não lutar
pelos sonhos seus e dos outros


Duas alminhas

Duas alminhas penadinhas de poucos crimes
se esqueiram detrás da porta a observar
os encarnados de vidas normais:
"será que não percebem o destino?"
Infinitamente no eter ecoa
o desejo delas de ter um corpo mortal
Afinal, duas alminhas penadinhas
esperam o nascer do sol
no umbral dos sonhos que jamais

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Eu, a Revolução!

Eu e minha imensa força
Eu e meu delírio:
napoleão e quixote no mesmo pacote
Eu, o todo, o princípio, a forma e a essência da vida
Condenado a incendiá-la
a fazê-la plena mesmo que seja por um instante
para que todos saibam que é possível
Responsável pela conspiração poética das pequenas revoluções estéticas
pelos grandes atos heroicos do cotidiano desconhecido
pelas grandes invenções de palavras doces
Eu, artífice e autor intelectual de ataques de otimismo
declararei em alto e bom som que serei
um estraga prazeres do niilismo irresponsável
de uma burguesia pseudo-liberal
de um socialismo burocrático
Em praça pública, na internet, tevê aberta e a cabo
proclamarei em alto e bom som que daqui para frente
colocarei em pratica todas as minhas habilidades
Em mim, famélicos de todas as fomes
tereis um obstinado construtor da liberdade
Serei um exemplo de uma incrível criatividade
usarei das mais avançadas tecnologias
de todos meios e formas
da mais alta cultura
da mais refinada estratégia
do cordel, da poesia de rua de Pernambuco
das conversas de comadres e compadres
dos versos do samba, do jongo e da embolada
para mostrar que a vida não é pouca coisa
destinada ao péssimo e a sorte
De pé, oprimidos e injustiçados de todo o mundo
unimo-nos nessas microscópicas vitórias éticas
de prazeres e alegrias clandestinas:
o presente é nosso!

terça-feira, 24 de maio de 2016

Enxurrada

Dentro de mim
o olhar e o sopro
Gênese cosmogônica:
“do pó viestes”
Mas o pó segue em cascatas
miríades de cristais e formas 
Olhar-guilhotina atravessa
o plano da existência 
toma a consciência
quisesse fosse a diferença
Sigo aos borbotões da enxurrada 
de um destino coletivo
Busco olhares náufragos
tento agarrar-lhes de relance
lanço um anzol fora da lógica
Nas várzeas fertilizo restos
com belezas recolhidas na vazante 
da poesia 

Potiguar

A faixa de dunas e mar de norte a sul definem quase nada na cidade autônoma de Natal Tudo contém areia dissolvida no café ou na gasolina Ex...