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domingo, 31 de maio de 2026

A Arte de ter Razão

Para que serve a filosofia?

Para ter razão?

Razão é algo que se possa ter?

Ou nasce mesmo, da interação

seja com o que for:

coisa, crespúsculo, pássaro


Razão não é algo para se ter

Filosofia deveria ser para o viver

melhor, mais longe

distante do que diminui a humanidade

de suas naturais habilidades 

de perceber o mundo como seu


A arte de ter razão é grande perda

de tempo 

e potência criativa

no que é da ordem do amor

A vida que explode agora e além

em miriades de detalhes


Paul Valéry ensinava

que o desconhecido está

no vagar do olhar

daquele que se dispoe a viver 

o conhecido de outra mirada

Como racionalizar a observação?


Tão pessoal quanto poética

Que arte é essa?

Venda de livros?

Construção de narrativas?

Convencimento e dominação?

Um enorme esforço para escanear 


as estratégias de enganar 

pela linguagem?

A arte de ter razão é um afeto triste

passivo quando

arte é viver o não vivido

razão é ver através do imaginário

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Edgar Morin (1921-2026)

Foi um susto...

O chão se abre ou foi o céu?

Aos 104 anos de idade

Edgar vai olhar de cima

aquilo que observava por dentro


A complexidade que vem

por todos os lados

Da resistência francesa ao nazismo

dos clarividentes livros do Método

à prosa amorosa para descrever as crises


deixa-nos um guia 

para reconhecer na poesia e na literatura

as máquinas para viver o que foi tecido

junto e misturado

Sua inteligência hologramática


não artificial 

dialogava com cada conceito

como quem celebra um novo vizinho

que acaba de se mudar

para a casa do conhecimento ao lado



quinta-feira, 2 de abril de 2026

Minha História da Arte

Lembro bem do nome dele

Aliás, seu segundo nome

Martins: meu professor de história

Talvez, ele tenha notado

a transfiguração em meus olhos

com as histórias da idade média


Transportava-me

ao longe da sala de aula

Um dia, disse:

"Se queres a história da humanidade..."

Até aquele momento o que ensinava 

era a história dos impérios


"Se dedique à história da arte"

A frase se tornou um mantra

voltando à mente

sempre que a história das revoluções

deixava-me sem esperanças

Me distânciei da arte


Seus subjetivismos

Sua falta de compromisso

com a verdade dos fatos

Fazia poesia escondido

Ia a museus sozinho

Interpretar uma obra de arte


era algo secreto:

um jogo pessoal

como brincar de palavras cruzadas

O mundo concreto

pode ser percebido diferentemente

por meios os mais diversos 


no rastro dos interesses

como na arte

tanto quanto no poder

Mister é entender

quem percebe e como

Depois de fazer as pazes


com o sentido da vida

minha primeira crise existência

Declarei-me poeta 

Veio então a segunda crise existêncial:

se o sentido da vida é o amor

como compartilhar o mundo


se o vemos de modos diferentes?

Enquando os poderes nos interpretam

e entregam soluções a la carte

que nos aprisionam

que contextos e biombos são estes

que nos acorrentam


nos colocam entre a satisfação

e o enfado? 

Que cárceres são esses

que apesar de termos as chaves

permanecemos sequestrados

Escondidos os segredos


nos tons e sobre-tons

cores complementares escondidas

para iluminar um caminho

sutil para a liberdade

Assim como Caravaggio 

que mostrou uma saída 


do medieval para as luzes


terça-feira, 31 de março de 2026

A Janela e o Espelho

Voltar ao bairro da infância

voltar ao campo de areia

onde os craques da bola

encantavam o meu olhar 

Abandonada a areia dá lugar


a uma miríade de seres

que polulam das profundezas 

Meu olhar pinta

um gramado, um cerrado

È tão inóspito o futuro


dele vislumbramos o mais próximo

No espelho, está aprisionado

entre passado e o presente

Nada se parece tanto ao agora

que não possa ser ontem


Pinta-se um futuro de memórias

Da janela observo o campo

da infância em transformação

Um pouco de mim nasceu nesse areial

observando nos outros


o az da bola que queria ser

Nem uma coisa nem outra

Sou aquele que vê através

das janelas do entendimento

Sou o que não cabe no espelho


domingo, 15 de março de 2026

Diante da Poesia

Depois de muitas idas

áquela livraria

me deparo com a rica

estante de poesia

Não uma

haviam três 

desfilando poetas

em todas as línguas


Havia um Brecht bilingue

ao lado de um Apolinaire

fluente em francês e português

A turma do Brasil toda presente

antigos e novos

liderada por Vinícius

Aqui e ali um Neruda


Uma dívina comédia

ao lado da Odisséia

A lista interminável

deprimiu a veia da poesia

que trago azul escondida

como um traço congênita

que me atravessa


Pobre da minha poesia

diante de gigantes

que eu não tive coragem de ler

João Cabral de Melo Neto

Pedro Nava

Clara Alvim

Gente que fez mais pelo Brasil


em versos do que gerações 

de políticos sem poesia nos olhos



A Casa e a Rua

Muitos anos depois encontrei

nas conversas com antropólogos

alguem que me entendia:

a casa era a rua

a rua era minha amiga

(Roberto da Matta 

sabia das coisas)

Até a roupa da rua

era o meu melhor pijama

Mamãe vaticinava: 

"é um ruéiro"

Já conformada com o tempo: 

"é um cigano"

Eis que o tempo passa

como um trem bala

Atrás da porta do banheiro

a roupa que mais gosto

é a da casa

A roupa da rua é necessária

A da casa meu eu verdadeiro

Será que foi a pandemia?

Que transição paradigmática:

a casa é a rua

a casa é corpo

O inferno não são os outros

O inferno é a rua?

O fenômeno é complexo

Trago da rua a essência

que é tão dos outros 

quanto minha

Leve de casa o ego

que é tão do mundo

que me desconheço

Habito um linha de fuga

que vai dar na minha casa



sábado, 24 de janeiro de 2026

As Moscas

O título é justo: "Tragédia dos Comuns"

O artigo científico mais lindo

acrescenta ao péssimo o comunal

Moscas paradas no ar 

vislumbram infinitos

Para Garret Jardin, a natureza


está precisando de ajuda 

Antas saem da águas para ouvir

as últimas descobertas da ciência

Enlouqueceu de importância 

ou quer controlar a maquinária

(de roldans, catracas e válvulas)


que sustentam os pássaros

em pleno voô?

Quem põe nódoa na natureza

quer ser por igual

Quem quer consertar o que é torto

deve desentortar 

a ferramenta de ver

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Tempo

As formigas de asas tem

pouco tempo

A vida exige intensidade 

Antes relegadas ao infinito chão

Agora percebem o infinito do infinito

Dura pouco a sensação

Não se percam

olhando para os lados

Aproveite o dia e a noite

As formigas de asas sabem

viver intensamente suas asas

sobrevoando a si mesmas:

a vida observando a vida

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Tempo Certo

Mangueira de mangas 

ainda verdes

O pensamento grávido

de idéias esverdeadas 

quase no ponto de colher

A sombra da palmeira ao vento

ondula como as asas do pensamento

Se a harmonia sincroniza o jogo

das imagens é coisa é fruto é 

algo que vem por ai 

na certa

no tempo certo

sábado, 3 de janeiro de 2026

O Império dos Reboques

O pinguim branco de capa preta

cercado pelos primos marrons

abre as asas e impôe regras 

As mesmas de antes que a diplomacia


dos pinguins cansados de conflitos

trouxesse a paz provisória

Outros pinguins brancos observam a cena

aprendem a lição


Agrupam seus marrons em exércitos

Delimitam seus territórios

Um novo tipo de guerra dos pinguins se aproxima

a reboque de uma história que chega diferente


como farsa em roupa nova

como agulha em disco arranhado

mesmo que desta vez tudo seja diferente

Por que os pinguins marrons não se unem?



The Empire of Tow Trucks


The white penguin with a black cape

surrounded by its brown cousins

spreads its wings and imposes rules 

The same ones as before, when diplomacy


among penguins tired of conflict

brought temporary peace

Other white penguins watch the scene

learn the lesson


They group their brown ones into armies

They delimit their territories

A new penguin war is approaching

in the wake of a story that repeats itself


like a farce in new clothes

like a needle on a scratched record

even if this time everything is different

Why don't the brown penguins unite?




A Arte de ter Razão

Para que serve a filosofia? Para ter razão? Razão é algo que se possa ter? Ou nasce mesmo, da interação seja com o que for: coisa, crespúscu...