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quinta-feira, 25 de junho de 2026

Fotografei a Terra Girando (para Márcio D'olne Campos)

 

A terra girava

de dia e de noite

Tudo nela girava junto

Ventava a brisa marinha

Aluava-se o céu

Suleando os sonhos

No crepúsculo, somos únicos

Ao nascer do sol somos outros

Brilha a consciência:

embarcados estamos

em uma nave espacial

Tudo gira!

A verdade morde

o rabo da contradição

Inovações de um lado 

Traduções do outro

Crises jogam luz

em reconditos e conflitos

O mundo capota

A mudança floresce

Não acredito em reviravoltas

mas elas chegam todos os dias

O Oroboro é nosso padrão 

de translação poética

Em contradições e ambiguidades

verdades contingentes eu vejo

nas fases da lua

nas fases da vida

a ética em seguir girando

na potência da alegria 

dos encontros


I Photographed the Spinning Earth 

(dedicated to Márcio D'olne Campos)


The earth was spinning

day and night

Everything on it revolved together

The sea breeze blew

The sky mooed itself

Southing the dreams

In the twilight, we are unique

At sunrise we are others

Conscience shines:

aboard we are

on a spaceship

Everything spins!

Truth bites

the tail of contradiction

Innovations on one side

Translations on the other

Crises cast light

on hidden depths and conflicts

The world overturns

Change blossoms

I don't believe in turnabouts

but they arrive every day

The Ouroboros is our pattern

of poetic translation

In contradictions and ambiguities

contingent truths I see

in the phases of the moon

in the phases of life

the ethics of keeping spinning

in the power of joy

of encounters



Fotografié la Tierra girando

(para Márcio D'olne Campos)


La tierra giraba

de día y de noche

Todo en ella giraba junto

Soplaba la brisa marina

Se aluaba el cielo

Surcando los sueños

En el crepúsculo, somos únicos

Al nacer el sol somos otros

Brilla la conciencia:

embarcados estamos

en una nave espacial

¡Todo gira!

La verdad muerde

la cola de la contradicción

Innovaciones de un lado

Traducciones del otro

Las crisis arrojan luz

sobre recónditos y conflictos

El mundo se voltea

El cambio florece

No creo en los giros inesperados

pero llegan todos los días

El Ouroboros es nuestro patrón

de traslación poética

En contradicciones y ambigüedades

verdades contingentes veo

en las fases de la luna

en las fases de la vida

la ética en seguir girando

en la potencia de la alegría

de los encuentros



J'ai photographié la Terre qui tourne

(pour Márcio D'olne Campos)


La terre tournait

de jour et de nuit

Tout en elle tournait ensemble

La brise marine soufflait

Le ciel se lunait

Sillonnant les rêves

Au crépuscule, nous sommes uniques

Au lever du soleil nous sommes autres

La conscience brille:

embarqués nous sommes

dans un vaisseau spatial

Tout tourne!

La vérité mord

la queue de la contradiction

Innovations d'un côté

Traductions de l'autre

Les crises jettent de la lumière

sur des recoins et des conflits

Le monde chavire

Le changement fleurit

Je ne crois pas aux retournements

mais ils arrivent tous les jours

L'Ouroboros est notre modèle

de translation poétique

Dans les contradictions et les ambiguïtés

des vérités contingentes je vois

dans les phases de la lune

dans les phases de la vie

l'éthique de continuer à tourner

dans la puissance de la joie

des rencontres



Ich habe die rotierende Erde fotografiert

(für Márcio D'olne Campos)


Die Erde drehte sich

Tag und Nacht

Alles auf ihr drehte sich mit

Die Meeresbrise wehte

Der Himmel monte sich

Die Träume durchpflügend

In der Dämmerung sind wir einzigartig

Bei Sonnenaufgang sind wir andere

Das Bewusstsein leuchtet:

eingeschifft sind wir

in einem Raumschiff

Alles dreht sich!

Die Wahrheit beißt

in den Schwanz des Widerspruchs

Innovationen auf der einen Seite

Übersetzungen auf der anderen

Krisen werfen Licht

in versteckte Winkel und Konflikte

Die Welt kippt um

Der Wandel blüht

Ich glaube nicht an Wendungen

aber sie kommen jeden Tag

Der Ouroboros ist unser Muster

poetischer Übertragung

In Widersprüchen und Mehrdeutigkeiten

kontingente Wahrheiten sehe ich

in den Mondphasen

in den Lebensphasen

die Ethik, weiterzudrehen

in der Kraft der Freude

der Begegnungen


domingo, 21 de junho de 2026

O Menino de Balsas

O menino corria atras de pássaro

Depois correu atrás de avião

Sonhou com a grande cidade

À beira-mar

Fundada por franceses

De Graça Aranha e Aluísio Azevedo

Sonhou com o diploma

No primário, foi aluno de Joca Rego


Depois correu ao trabalho, ao carro

À vida de adulto responsável

Sonhou com uma família

Um país melhor sonhou

Para os filhos

Sonhou em construí-lo

Colocou cimento na nova estrutura

Ainda no rascunho da construção


Sonhou um país de futuro

Diferente do general Charles de Gaulle

Acreditou que era possível

Para desacreditar tantas vezes

E tornar a acreditar vivendo

A alegria dos filhos

Para cada um criou um avião

De imagens oníricas


Que como nuvens, voaram pelo ar

Ele mesmo se descobriu hoje

Parte do sonho do filho

Que chora em um junho já distante 

E tão perto do corpo

Onde pulsa a grata vida

Que fez por amor

Agora é sonho vivido


O amigo invisível

A mão de dedos longos

Que pousa no peito

E acalma quando acelera

o pulso, o ritmo do mundo

É de gratidão a cor 

O som destas lágrimas

É de amor


A música deste rio

Que corre em mim

Brota das nascentes do rio Balsas

Onde jazem os restos de meu pai

Sonho de peixe

Sonho de planta

Sonho das águas

Que caem sobre seus filhos



domingo, 31 de maio de 2026

A Arte de ter Razão

Para que serve a filosofia?

Para ter razão?

Razão é algo que se possa ter?

Ou nasce mesmo, da interação

seja com o que for:

coisa, crespúsculo, pássaro


Razão não é algo para se ter

Filosofia deveria ser para o viver

melhor, mais longe

distante do que diminui a humanidade

de suas naturais habilidades 

de perceber o mundo como seu


A arte de ter razão é grande perda

de tempo 

e potência criativa

no que é da ordem do amor

A vida que explode agora e além

em miriades de detalhes


Paul Valéry ensinava

que o desconhecido está

no vagar do olhar

daquele que se dispoe a viver 

o conhecido de outra mirada

Como racionalizar a observação?


Tão pessoal quanto poética

Que arte é essa?

Venda de livros?

Construção de narrativas?

Convencimento e dominação?

Um enorme esforço para escanear 


as estratégias de enganar 

pela linguagem?

A arte de ter razão é um afeto triste

passivo quando

arte é viver o não vivido

razão é ver através do imaginário

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Edgar Morin (1921-2026)

Foi um susto...

O chão se abre ou foi o céu?

Aos 104 anos de idade

Edgar vai olhar de cima

aquilo que observava por dentro


A complexidade que vem

por todos os lados

Da resistência francesa ao nazismo

dos clarividentes livros do Método

à prosa amorosa para descrever as crises


deixa-nos um guia 

para reconhecer na poesia e na literatura

as máquinas para viver o que foi tecido

junto e misturado

Sua inteligência hologramática


não artificial 

dialogava com cada conceito

como quem celebra um novo vizinho

que acaba de se mudar

para a nova casa do conhecimento 



quinta-feira, 2 de abril de 2026

Minha História da Arte

Lembro bem do nome dele

Aliás, seu segundo nome

Martins: meu professor de história

Talvez, ele tenha notado

a transfiguração em meus olhos

com as histórias da idade média


Transportava-me

ao longe da sala de aula

Um dia, disse:

"Se queres a história da humanidade..."

Até aquele momento o que ensinava 

era a história dos impérios


"Se dedique à história da arte"

A frase se tornou um mantra

voltando à mente

sempre que a história das revoluções

deixava-me sem esperanças

Me distânciei da arte


Seus subjetivismos

Sua falta de compromisso

com a verdade dos fatos

Fazia poesia escondido

Ia a museus sozinho

Interpretar uma obra de arte


era algo secreto:

um jogo pessoal

como brincar de palavras cruzadas

O mundo concreto

pode ser percebido diferentemente

por meios os mais diversos 


no rastro dos interesses

como na arte

tanto quanto no poder

Mister é entender

quem percebe e como

Depois de fazer as pazes


com o sentido da vida

minha primeira crise existência

Declarei-me poeta 

Veio então a segunda crise existêncial:

se o sentido da vida é o amor

como compartilhar o mundo


se o vemos de modos diferentes?

Enquando os poderes nos interpretam

e entregam soluções a la carte

que nos aprisionam

que contextos e biombos são estes

que nos acorrentam


nos colocam entre a satisfação

e o enfado? 

Que cárceres são esses

que apesar de termos as chaves

permanecemos sequestrados

Escondidos os segredos


nos tons e sobre-tons

cores complementares escondidas

para iluminar um caminho

sutil para a liberdade

Assim como Caravaggio 

que mostrou uma saída 


do medieval para as luzes


terça-feira, 31 de março de 2026

A Janela e o Espelho

Voltar ao bairro da infância

voltar ao campo de areia

onde os craques da bola

encantavam o meu olhar 

Abandonada a areia dá lugar


a uma miríade de seres

que polulam das profundezas 

Meu olhar pinta

um gramado, um cerrado

È tão inóspito o futuro


dele vislumbramos o mais próximo

No espelho, está aprisionado

entre passado e o presente

Nada se parece tanto ao agora

que não possa ser ontem


Pinta-se um futuro de memórias

Da janela observo o campo

da infância em transformação

Um pouco de mim nasceu nesse areial

observando nos outros


o az da bola que queria ser

Nem uma coisa nem outra

Sou aquele que vê através

das janelas do entendimento

Sou o que não cabe no espelho


domingo, 15 de março de 2026

Diante da Poesia

Depois de muitas idas

áquela livraria

me deparo com a rica

estante de poesia

Não uma

haviam três 

desfilando poetas

em todas as línguas


Havia um Brecht bilingue

ao lado de um Apolinaire

fluente em francês e português

A turma do Brasil toda presente

antigos e novos

liderada por Vinícius

Aqui e ali um Neruda


Uma dívina comédia

ao lado da Odisséia

A lista interminável

deprimiu a veia da poesia

que trago azul escondida

como um traço congênita

que me atravessa


Pobre da minha poesia

diante de gigantes

que eu não tive coragem de ler

João Cabral de Melo Neto

Pedro Nava

Clara Alvim

Gente que fez mais pelo Brasil


em versos do que gerações 

de políticos sem poesia nos olhos



A Casa e a Rua

Muitos anos depois encontrei

nas conversas com antropólogos

alguem que me entendia:

a casa era a rua

a rua era minha amiga

(Roberto da Matta 

sabia das coisas)

Até a roupa da rua

era o meu melhor pijama

Mamãe vaticinava: 

"é um ruéiro"

Já conformada com o tempo: 

"é um cigano"

Eis que o tempo passa

como um trem bala

Atrás da porta do banheiro

a roupa que mais gosto

é a da casa

A roupa da rua é necessária

A da casa meu eu verdadeiro

Será que foi a pandemia?

Que transição paradigmática:

a casa é a rua

a casa é corpo

O inferno não são os outros

O inferno é a rua?

O fenômeno é complexo

Trago da rua a essência

que é tão dos outros 

quanto minha

Leve de casa o ego

que é tão do mundo

que me desconheço

Habito um linha de fuga

que vai dar na minha casa



sábado, 24 de janeiro de 2026

As Moscas

O título é justo: "Tragédia dos Comuns"

O artigo científico mais lindo

acrescenta ao péssimo o comunal

Moscas paradas no ar 

vislumbram infinitos

Para Garret Jardin, a natureza


está precisando de ajuda 

Antas saem da águas para ouvir

as últimas descobertas da ciência

Enlouqueceu de importância 

ou quer controlar a maquinária

(de roldans, catracas e válvulas)


que sustentam os pássaros

em pleno voô?

Quem põe nódoa na natureza

quer ser por igual

Quem quer consertar o que é torto

deve desentortar 

a ferramenta de ver

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Tempo

As formigas de asas tem

pouco tempo

A vida exige intensidade 

Antes relegadas ao infinito chão

Agora percebem o infinito do infinito

Dura pouco a sensação

Não se percam

olhando para os lados

Aproveite o dia e a noite

As formigas de asas sabem

viver intensamente suas asas

sobrevoando a si mesmas:

a vida observando a vida

Fotografei a Terra Girando (para Márcio D'olne Campos)

  A terra girava de dia e de noite Tudo nela girava junto Ventava a brisa marinha Aluava-se o céu Suleando os sonhos No crepúsculo, somos ún...