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segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Hegemonia

gramsci se deita na noite de são joão
os celtos tocam suas gaitas para celebrar
os principios masculino e feminino
que eternamente se encontram
seja na Roma de Constantino
ou num café em Brasília
numa floresta fria e escura na Patagônia

está na folha da coca
está nas oferendas dos santos
está na poiesis dos gregos
quando na praxis dos marxistas
duas faces da mesma moeda

dois sentidos opostos e complementares
o amor onipresente soa como um tambor 
a musa toda extremece
o grito que ecoa no vale fértil da hegemonia
é espiritual


sábado, 5 de novembro de 2016

Vertigem

Ver poesia o poeta observa o nada florescendo flutuando no ar
O nada sem beira nem eira de existir resplandescente... O poeta existe
inaugura existências
é uma caixa de ressonância arcaica máquina fotográfica transparente e translucido o nada antes do silêncio
é fotografado de quase-verbo
Bonito é o verso que num instante desaparece vai ser escrito noutro lugar

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Malagueta

As dores da metamorfose enquanto tudo adormece 
O crepúsculo mancha seu corpo 
No pequeno jardim da janela  
Ela é sentinela: 
O que é do vermelho é assunto dela

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Bacia das Almas

bacias das águas
               das terras
                   das almas
enchem ou esvaziam os corpos
confome o sentimento e a razão:
rios de intenção

domingo, 4 de setembro de 2016

Sertanejo Perfumado


Em tom sarcástico, disse-me o sulista
que sertanejo quando sobe na vida
compra sabonete Phebo para marcar a virada
o fim das vagas magras
Toda vez que quero saber aonde vai dar um caminho
lavo o rosto com o sabonete de meu pai

Sertanejo que já foi para o andar de cima
na memória o cheiro da tangerina encardido na pele
o cravo mascado na boca de bom hálito
Por onde passava deixava o perfume da vitória da alma
Na vida dos outros, no mundo, no turbilhão das cidades
onde os sonhos de menino podem não achar caminho
os perfumes de meu pai lembram-me do essencial

O aroma da felicidade aprendi a reconhecer
ao cheirar o cangote de minha mãe
Uma sertaneja prodiga em cheiros e aromas
como este do cuscuz de milho que vem lá da cozinha
exalando seu chamado ancestral

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Envelheçam

Morreu mais um e morreu mais um
e aquele lá morreu também
E o tal que aparecia demais na TV
se foi e não deixou ninguém 
Foi-se sem avisar

Deixou-nos á envelhecer sozinhos
entregues ao tempo cruel das cidades imortais
que ficarão para sempre depois de nós
Aquele lá era o embaixador do bom humor
Aquele outro prefeito do lugar e guardião da alegria

O que farão as crianças de agora
abandonadas pela sabedoria dos que já foram embora?
Com quem contarão?
Consigo mesmo, diria Nelson Rodrigues:
“Envelheçam, envelheçam, envelheçam”

Para que antes de morrer façam o uso-fruto
de tudo que foi plantado
sem garantia alguma que não será arrancado
Envelheçam para que possam ir além de vocês mesmos
e daqueles que já foram para o além

Menino, coragem!


Do início ao fim
do polo sul ao norte
em voltas intermináveis e genéticas
Yin e yang em frenéticas polarizações
No adulto e suas contas
o menino curioso sonha

O menino cura!
A pulsação da curiosidade acelera o pulso
O menino não sabe que sabe
segue o coração que sabe 
Músculo que contrai o passado no presente
e arremessa o menino no futuro

Bússola, astrolábio, biruta dos ventos
gps cravado no peito
busca até o fim do passado a chama
busca a maquina do tempo
que o transporta por inumeráveis aventuras
do fim até o começo

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Inominável

Se cada um fala do mundo
como se todo o mundo falado fosse
de um, de uns, outros e todos
Toda lingua nomearia o arco-iris
do jeito como falam as cores
Multiplicam-se as trocas 
Escambos de palavras sonoras 
Semeiam-se conflitos sobre a essencia das coisas
Sela-se a paz com uvas e vinhos
Cada lingua particular destino de amar
Inominável desejo de nomear

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Neandertais

Meu crânio é duro
É osso e guarda
substancia que perpassa
vasos, tubos, túneis
cavidades, conexões intermináveis
fazem sentido
fazem a vida ou quase
caminhando comigo
muito mais antigos que meus sonhos
estes ossos ancestrais neandertais
é bossa de um corpo
que me leva para chupar picolé
que me lê Shakespeare
e poemas que tocam o coração
Osso ainda que mole
oco que me carrega
sabe muito de carregar
sabe muito de viver
sabe até amar por instinto
essa maravilha
caixa de pandora
mistério que cria
criatura que alumia


sexta-feira, 10 de junho de 2016

Potiguar

A faixa de dunas e mar de norte a sul definem quase nada na cidade autônoma de Natal Tudo contém areia dissolvida no café ou na gasolina Ex...