Pesquisar este blog

terça-feira, 1 de setembro de 2020

João Brasileiro (para João Nildo in memoriam)

João professor e aluno

João de Paris

João do bar

Simplesmente João

coração do tamanho da África

João da Bahia

João engenheiro

João do ouro negro da Amazônia

Energético João

João das hipérboles do cálculo

dos labirintos da sustentabilidade

João de Moçambique

João de Cabo Verde

João de Lisboa

João tão comum

tão incomum

sem papas na língua

João que sonhou o mundo

João da alegria

João amigo da vida



sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Recomeço

O medo do coral jovem enfrenta

a primeira tempestade marinha

O receio da pequena águia

antes de seu primeiro voo

Mas essa não é a primeira vez que vou...

Sou copo vazio

flutuando na superfície de um lago 

Perdoar faria de mim uma taça

para o vinho novo

Do presente me afasto

felino que atravessa a noite 

fugindo da lua





terça-feira, 18 de agosto de 2020

Jerusalém

Escrevo porque Jerusalém me pede

Escrevo para não esquecer

do portão de Damasco por onde os árabes

entram na cidade antiga

no redemoinho da história humana


"Eshrt! Eshrt! Eshrt!"


O som em árabe ressoa pelas ruas estreitas

o mundo inteiro por apenas dez shekels

Pessoas de todas as latitudes

se esbarram e seguem sua historia


"Eshrt! Eshrt! Eshrt!"


Tecidos esvoaçam no céu azul

o cheiro do pão fresco perfuma os cabelos

amêndoas, tâmaras e damascos são flores 

nas bancas dos vendedores

nas esquinas a romã é espremida na hora


"Eshrt! Eshrt! Eshrt!"


Tudo parece estar liquidando ou liquidado

especiárias, mercadorias, vendedores aos gritos

a cidade é um lázaro que renasce todas as manhãs

Do portão estende-se um labirinto de caminhos

que me fazem sonhar acordado


"Eshrt! Eshrt! Eshrt!"


Tudo que é fundamental está disponível

a todos os homens e mulheres

O sol acaricia mais uma vez 

as paredes carcomidas pelo tempo:

um convite a fazer uma nova história


"Eshrt! Eshrt! Eshrt!"


O mundano, o trágico e o eterno

plantas recém-nascidas crescem nas frestas dos muros

enquanto oliveiras ancestrais observam da colina 

um caldeirão imenso e imemorial:

o espetáculo humano


segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Navegar é preciso (para Carl Jung)

Jung devia estar sonhando

quando revelou (-se) o inconsciente coletivo

Este que nos habita

coloca no mesmo ônibus

no mesmo sistema operacional...

Quando acordou percebeu

que o conhecimento era uma quimera

Toda a historia humana está inscrita no corpo

Balbuciou: "O consciente é um rolha

boiando no oceano do inconsciente"

Pensar é construir um barco a vela

para atravessar o oceano

entre a dúvida e a pergunta

Se o barco-ideia sabe navegar

a consciência embarca

nas margens deste universo mágico

Milho

Sou no milho 

O milho é em mim

Receita gastronômica 

que nenhum chef entenderá...

O milho é meu irmão

Sou filho do milho

Quando alta a espiga desponta no céu

o milho amarelo como o sol

agradece a todos pela sua criação

O milho nem planta é:

metáfora do universo

Quando nele nos saciamos

ele se apodera de nós

Somos tudo que podemos ser

nos sonhos do milho



domingo, 9 de agosto de 2020

Destinos

Meu destino eu sinto

precinto uma brisa

que vem do sul e vai para o norte

Por onde passa refresca

traz e leva pássaros 

recados, chuvas e presságios

Meu destino é quase nada

ar em movimento

Traz palavras, idéias e sussurros

de um outro mundo

Aonde nasce o destino meu?

Nasce do moto-perpétuo

de todos os destinos da terra

um impulsionando o outro

dando voltas no globo

Corrente infinita de trabalhos

na recriação da vida

essa magia que nos habita

terça-feira, 21 de julho de 2020

Bailarina (para Andrea)

Eu não sei que mulher é essa
Nem ela sabe quem é...

Sei que nos dias quentes
ela sobe nas alturas
com os vapores do Rio Negro
aonde vivem os espíritos da floresta

para se congregar com os amantes da Terra
e de repente dança para mim
para me lembrar que o vento
traz boas mensagens

as vezes notícias graves
Ensina-me a ouvir as árvores e os pássaros
Ela é irmã dos gatos
que silenciam e observam o momento exato

de lutar com garras e manhas
para que a vida siga plena em sua saga
no corpo da bailarina
atravessado por ondas de prazer

Eu não sei que mulher é essa
nem ela sabe quem é...

O amor é uma canoa sem leme

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Ferramentas do Desejo

O carro é um cadeira com quatro rodas
A bicicleta tem duas pernas com pés rodopiantes
As cadeiras de rodas são carros de duas rodas
Colheres são dedos compridos e metálicos

Ferramentas do desejo para esticar limites
da boca, do corpo, dos sonhos
São nossos cotidianos conhecidos
para vivenciar o sobrenatural

segunda-feira, 6 de julho de 2020

50, 500, 50.000 anos

Ao completar 50 anos o tempo retorna
não apena 50 mas 50.000 anos
Das origens da humanidade á vida que passa ligeira
para que você esteja comemorando
mais um ano de vida
Para o tempo são milagres
milhares de anos em ciclos
de plantio e colheita
Regressar é ilusão de ótica:
no teu coração tudo segue igual mas diferente
Ao completar 50 de repente o ser
percebe-se parte da paisagem
responsável pela sombra, pelo calor
pela semente e pela flor
que alegra a si e aos outros
A vida cobra uma resposta
Foram muitos mais de 50.000 anos
de ancestrais sonhando junto
imaginando o futuro em você
Indígenas, Fenícios, Árabes, Africanos e Europeus
e sabe-se lá quantos mais habitaram estes litorais
Se alguém visita 50 vezes esse número mágico
a metamorfose do tempo plasma um destino
Sensações reverberam um convite infinito
de fazer valer a aposta que a vida fez
em ti e para além de ti

domingo, 28 de junho de 2020

Do Desejo (para Gilles Deleuze)

Perguntei ao monge da Tailândia
com mais curiosidade do que respeito
por que esse problema com o desejo?
Temendo ter finalmente abalado
o equilibro do budismo
que acalma o desejo
pelo zen do instante infinito
"Problema nenhum com o desejo"
respondeu me com um sorriso casto
"Buscamos o prazer"
Por que esperar pelo que ainda demora?
Da espera vem a busca
da busca a ansiedade do querer
Que o desejo venha
para desfazer o estabelecido
construir outra história
Que o prazer medite o momento
que nos atravessa agora
Que haja prazer no desejo
e desejo no prazer

Potiguar

A faixa de dunas e mar de norte a sul definem quase nada na cidade autônoma de Natal Tudo contém areia dissolvida no café ou na gasolina Ex...