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sábado, 23 de fevereiro de 2019

Sapatos (para Bruno Latour)

Os sapatos um dia se encontrarão
em uma velha sapataria ou numa lixeira qualquer
Em verdade, é grande a responsabilidade dos sapatos
quando os donos não estão mais presentes

Os de legítimo couro e os falsificados
os de pano e aqueles de marca
os de grife e os exclusivos
em um diálogo franco

A conversa das coisas abandonadas
por demais usadas ou herdadas
guardam a personalidade dos donos
que a entropia desfigura e revela

a antiga pompa e as vantagens gastas
falam do essencial e dos sonhos
dejesos infantis e segredos intimos
das vidas e seus sapatos

Eu mesmo pedi a Deus pés maiores que os da minha irmã
atendido o pedido tornou-se maldição
Tenho apenas encontros raros com sapatos escolhidos
convivo com aqueles que aceitam meu tamanho

A humanidade nivelada por baixo
encontra a verdadeira grandeza
a real dimensão da vida gasta á cada passo
onde os sapatos permanecem para narrar o passado

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