Enquanto a cabeleireira esticava uma mecha de fios (uns 20 centímetros) para corta-la rente aos seus dedos, um ano se passava numa contagem de contágios e mortes. O tempo poderia ser medido a partir da raiz até ponta dos cabelos. Ainda restou um pouco de alegria para comemorar o ano novo? O tempo fez em mim cabelos brancos de medo, apreensão, dúvida e esperança. Fiquei mais grisalho e consciente dos estratagemas, cenários e narrativas. Atento aos discursos dissonantes, mentiras elaboradas, e autoenganos. A crueldade e vileza conviveu com a extrema coragem e o altruísmo. Um ano de extremos humanos fez aniversário neste janeiro de 2021, que não nasceu ainda. O povo brasileiro lutou para atravessar este ano porque era luta conhecida de um cotidiano à beira do caos: 200 mil mortes e contando. Nem precisa ser sociólogo para saber onde o coronavirus ceifou vidas do modo mais desumano. Os cabelos vão caindo sobre o manto branco. Caem os meses e os dias sobre a memória, e caem as ilusões, sonhos e madrugadas sem sono. A maior conquista do ano, que não terminou ainda, é finalmente entender que “crise”, em chinês, não significa oportunidade, mas coragem de ver claro a realidade, que aqui estava durante todo o tempo.
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