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sábado, 3 de janeiro de 2026

O Império dos Reboques

O pinguim branco de capa preta

cercado dos primos marrons

abre as asas e imponhe regras 

As mesmas antes que a diplomacia

dos pinguins cansados de conflitos

trouxesse a paz provisória

Outros pinguins brancos observam a cena

aprendem a lição e cercam seus territórios

Uma nova guerra dos pinguins se aproxima

a reboque de uma história que se repete

como farsa em roupa nova

Por que os pinguins marrons não se unem?


sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Brasis

São tantos os Brasis quanto os olhares

que aqui chegaram ou daqui sairam

Depois das trevas medievais

os patrícios europeus cairam 

numa cilada grego romana

Um pesadelo de marmore e geométrica

enclausurando a vida que pulsa

do outro lado do Atlântico

no novo mundo colonial

que já nasceu velho

A América e seus habitantas viviam

realidades quânticas ha milhares de anos

O pesado esquadro europeu fez os cáculos

da pilhagem quase científica

Trouxeram a idade média

escondida nas pesadas roupas

Enquanto os nativos ofereciam

o compartilhar da magia

Vespúcio aceitou a troca

e foi morar em Buzios

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

O Chamado

O chamado das florestas

O chamado dos bosques

O chamado das noites com lua

Inrompe no peito um desejo louco

de ser da floresta, dos bosque e da lua

Correr com os animais em busca

do alimento da alma


Atravessar torrentes de ar e chuva

vendavais poderosos

ventanias avassaladoras

e ainda ser como a chuva e o vento

e o rio e a tormenta

Fluir em direção ao serviço

Se perder na necessidade do outro


No poder seu e vosso

Na potencia do ser e no seres

Existir em cosmogonias

sem fim e nem começo

Regar em si e nos outros

o amor que faz o planeta

girar ao chamado


Busco meu cavalo alado

convido-o a percorrer caminhos

Volto ao local de nascença

Reconheço aonde comecei

Miro no horizonte

aonde fica meu final:

galopar em direção ao sol



sábado, 13 de dezembro de 2025

Anu Preto

O Anu Preto pousou 

em um verso

para ver o mar


Admirado 

sorveu a alma marítima

Suas ondas e nuvens 


Evaporou-se depois

leve de tanto azul

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Fez-se a Humanidade

Quando as divindades criaram

a humanidade e a natureza

queriam observadores de segunda ordem

para confirmarem a resiliência do universo criado


Ali no jardim do paraíso

um laboratório de testes fez

cada humano perceber-se

como um universo aberto


em constante troca com o mundo

A consciência humana

forjou-se estocástica, adaptativa e resiliente

e apesar das reclamações iniciais


sempre adaptável e agradecida

as intemperes e milagres 

(incluindo as tragédias bíblicas)

enviadas pelos deuses


Nem dentro nem fora

Nem dentro nem fora

Sem ponto fraco

Ou forte

Sem miolo nem casca

O olho vê a si mesmo


Na penumbra da existência

Dar a vida ao que vive

Abrir alas aos céus

Aceitar o sonho

Adentrar na floresta 


Não temer o tigre aqui dentro

Próximo e distante perdem o foco

Novas palavras nascem

Para dizer o que não se diz

O que é tão lá e aqui 


Ao mesmo tempo e ontem 

O amanhã é a outra face da morte

A moeda da vida paga para ver

Não é preciso fazer o que faz

Nem ocupar o que não existe

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Cortar o Mundo

Quem pergunta

com faca abre o mundo

Faz o corte e separa

o real e seu entendimento

Quem prefere o lado certo?

Quem fica com o pato?

A pergunta e a resposta 

são irmãs siamesas separadas

depois do parto

A faca tem a imprecisão do desejo

a vontade do percebido

Perguntar ofende

pois escolhe e afasta

tudo que não rimar com resposta

Perguntar está no fio da navalha

É faca de ponta que desponta 

de um mar de incertezas

Certezas a gente pesca com sorte

Em rede, pega-se de tudo

Periga ficar do lado de fora



segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Formiguinhas

Será que as formiguinhas sentem

o valor da colaboração entre elas?

Movidas por puro instinto

ou, sonham com uma alma individual?


O trabalho mesmo solitário

constroi um conforto para todos

Proteção, alimento, abrigo

a lista continua


Um formigueiro e seus especialistas

entraria em colapso

se o operário quisesse imprescionar

o soldado que buscaria por sua vez 


ser como a rainha que desistiria de parir 

e sairia por ai

Os humanos aprenderiam muito

ao observar esse cosmos em miniatura 


de um formigueiro e seus afetos

Formiga não dá "like"

De Pernas para o Ar

Dois corpos não ocupam

O mesmo lugar no espaço

Há de encontrar brecha

Mecânica ou quântica

Para caber tanto desejo 

Se você usa os pés 

Para palmilhar o mundo

Com as palmas ao chão

Eu desvendo o real

A capoeira ensina

Navegar do lado de dentro

Desse mundo enviesado

Plantando bananeira

Para entender o por que

De tanta liberdade cerceada

De pernas para o ar

Venha ver

Todos tem espaço-tempo

No jogo da vida

terça-feira, 25 de novembro de 2025

República de Estudantes (Prefácio)


República de Estudantes:

como um grupo de estudantes 

mudou a forma de fazer política no Brasil


Prefácio

 

Revisitando as entrelinhas do excelente livro de Marcelo Rubens Paiva "Feliz Ano Velho" é possível perceber um embate profundo na história política brasileira na década de 80 do século passado. Que democracia queriamos? Se somos uma democracia, somos um democracia de que tipo? Em " Feliz Ano Velho", um líder de um centro acadêmico da Universidade Estadual de Campinas, e simpatizante do recém criado Partido dos Trabalhadores em 1980, sofre uma acidente que retira o movimento de suas pernas e braços.

Começa ai sua saga para reaver os movimentos do corpo e da história. Filho do deputado federal Carlos Paiva, assassinado pela ditadura militar, Marcelo reconstrói essa trajetória política, e a sua trajetória para ajudar a reconstruir  também as linhas de entendimento da história dos estudantes da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp.  Diante da tetraplégia, ele irá vivenciar a exclusão de diversas formas em um pais de cultura patriarcal e escravocrata, cujo o direito das minorias é ainda ignorado.

O livro mostra com linguagem cinematográfica esse desenrolar de fatos pessoais e coletivos onde o autor busca forças para repensar a vida, e a política como ferramenta de construção dessa vida. Seu livro é um chamado a reconstrução da capacidade de sonhar no pós-ditadura. A Unicamp era o palco ideal para essa reconstrução, a então conhecida "Universidade de Esquerda". Na sua formação e construção, que se inicia em 1966, recebeu cientistas e professores exilados em seu próprio pais, e aos cuidados do reitor interventor federal Zeferino Vaz, que dá nome á cidade universitária.

A leitura de "Feliz Ano Velho" me arrancou de Brasília, e me arremessou no distrito de Barão Geraldo, Campinas, estado de São Paulo onde se localiza o campus da Universidade Estadual de Campinas. Mas eu não cheguei lá sozinho. Uma geração de jovens veio comigo, apenas 4 anos após a abertura política em 1986. A gente queria "tudo ao mesmo tempo agora", queria ser feliz, e construir um novo pais a partir de um campus universitário muito especial. 

Queriamos um Brasil que dividisse com seus filhos e filhas o alimento, a natureza, o conhecimento, e a capacidade de sonhar, queriamos uma nova república, uma república em que pudessemos experimentar e construir juntos: uma república de estudantes.


  1. A chegada
  2. O Saco-roxo
  3. Saraus poéticos e políticos
  4. No reino dos doutores
  5. A tomada da bastilha estudantil
  6. É tudo nosso!
  7. O latifúndio é o conhecimento
  8. A Revista Cópula
  9. O Cursinho do DCE
  10. As Rádios-Livre Muda, Cega e Surda
  11. Identidade: entre à esquerda
  12. Dialogando com o Tio Sam
  13. A volta

  Epílogo

O Império dos Reboques

O pinguim branco de capa preta cercado dos primos marrons abre as asas e imponhe regras  As mesmas antes que a diplomacia dos pinguins cansa...