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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Carta a Honestino Guimarães


Nossas mães se conheciam

Eu passei pela UnB

como um raio

querendo qual grego

fora de época

sorver tudo da ágora universitária

Eu, o pequeno questionador

A primeira revolta aconteceu


no colégio de padres

Abaixo a separação!

A gramática apartada das ciências

A matemática afastada da história

Eu denunciei a distância do real

onde tudo é misturado

Preciso ser honesto, Honestino:

Eu não gostei da escola


A universidade me frustrou

Ali não encontrei

a interdisciplinaridade que buscava

Caro Honestino

a escola está atrasada

a universidade também

São fotos tiradas do real

com o retrovisor da história


Eu acreditei na evolução humana

que a história lê através das artes 

Quando poetas e artistas

dos saraus de poesia 

nossa bastilha reunidos

tomaram o poder do DCE da Unicamp

nos chamaram de loucos

retrógrados, sem rumo


basistas e ingênuos

A minha ingenuidade diferente da tua

Achavas que era possível

prever o movimento da história

Achei que era possível

mover emoções e corações

mas não previ o movimento da razão 

sempre direcionada ao passado


Antecipei as falácias do planejamento

e da estratégia tecidas pelas vanguardas

Os planos são como guias de navegação

dos partidos da política

não das pessoas

de carne, sonho e desejo

O povo quase sempre

tratado como os outros


a serem guiado pelo líder

Essa palavra sem realidade

Sonhei com redes de estudantes

desvendando os latifúndios

do conhecimento universitário

devolvendo a ciência

às pessoas para encontros notáveis

e troca de saberes


Fui derrotado pela tradição

pela qual você lutou

que era o horizonte da época

para vislumbrar a democracia

Estamos à busca, Honestino

de novas referências

que nos ajudem a surfar

nesse turbilhão de narrativas


Gostavas de xadrez

Imagine todas peças

se movendo ao mesmo tempo

em vários tabuleiros

sob regras mutáveis

Meu caro Honestino

sua luta desaguou em um tempo

onde todo valor parece ter um preço


Quando atrasei meu curso

o sonho já me tomava as horas

dos estudos disciplinares

Sua mãe lembrava a minha

da dor de perder um filho

em movimento político legítimo

Eu te agradeço:

como é bom ser a gente na vida


ser ator de si mesmo

O tempo é outro, Honestino

atravessamos a ameaça e o golpe

declarado, e executado com rigor

Hoje, tudo é híbrido

Somos todos um pouco

teledomesticados e vigiados

Mas temos todas as ferramentas


para desenhar sem medo

o futuro da liberdade

temos todas as necessidades

conectadas ao alcance dos dedos

Quem necessita se agita

não cede mas negocia

melhores maneiras de viver

sem precisar de esmolas digitais


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

O Mundo da Ciência

O mundo é vasto

ninguem quer explicá-lo

A ciência quer encaixá-lo

em uma versão reduzida de caixa

Que possa ser replicada

até ser chamada de verdade

A verdade científica não é vasta

É tópica e serve para algo

O mundo não serve para nada

Fornece a beleza genuina

que admiramos no crepúsculo

A ciência cria um mundo próprio

Na porta, o dizer pendurado:

escolha sua episteme

que eu te direi

a pequena porção que te cabe

no mundo

das pequenas verdades científicas

sábado, 1 de agosto de 2026

A Capoeira convida

Capoeira convida 

Aflorar na pele

Aquífero escondido

para dentro da vida

Convida a gingar

milhares de anos

nos segundos da finta

Revirar a ancestralidade

no rabo de arraia

tão viva quanto você

A capoeira convida

a destravar o fóssil

para libertar o físsil



sexta-feira, 31 de julho de 2026

Antes da Metáfora

A metáfora da metáfora

a metáfora que vende

a metáfora que excita

a metáfora que mente

a metafora que pensa


Esconde e revela

aquilo que parece estar dentro

esta do lado de fora

A infelicidade é falsa?

Metáfora da seriedade

A sensualidade

virou metáfora da libido?


Quando falta a coisa

a imagem perde

o fundo e o truque

enfim revelado 

Fala mais alto

do que mil metáforas


segunda-feira, 6 de julho de 2026

Futuro do Presente

O general Charles de Gaulle diria hoje 

o mesmo de outrora:

"O Brasil não é um país sério”

Esse olhar saudoso de Napoleão 


com seus fracassos escondidos

adora escancarar os nossos

As vitórias são enterradas sem pudor

Stefan Zweig foge da Alemanha Nazista


Ao pisar na praia de Copacabana 

escreve na areia

"Brasilien, ein Land der Zukunft."

(Brasil, o país do Futuro)


Um futuro racial e tolerante

grandioso em sua própria natureza

um imenso potencial a ser realizado

cerceado ainda por um passado elitista


que adora falar francês

"Le Brésil est le pays du futur."

Aos perdedores, o futebol e o futuro

em que os mais fracos, com sorte


às vezes ganham dos mais fortes

Escondidos, nossos passados construídos

entortando o vento

dando nó em pingo d'água


vão criando pontes diárias

para um futuro do presente

onde a vida floresce:

sem campeões do mundo


sem gênios da bola

sem promessas de glórias

que não movem uma palha

pela felicidade geral da nação


quinta-feira, 25 de junho de 2026

Fotografei a Terra Girando (para Márcio D'olne Campos)

 

A terra girava

de dia e de noite

Tudo nela girava junto

Ventava a brisa marinha

Aluava-se o céu

suleando os sonhos

No crepúsculo, somos únicos

Ao nascer do sol somos outros

Brilha a consciência:

embarcados estamos

em uma nave espacial

Tudo gira!

A verdade morde

o rabo da contradição

Inovações de um lado 

Traduções do outro

Crises jogam luz

em reconditos e conflitos

O mundo capota

A mudança floresce

Não acredito em reviravoltas

mas elas chegam todos os dias

O Oroboro é nosso padrão 

de translação poética

Em contradições e ambiguidades

verdades contingentes eu vejo

nas fases da lua

nas fases da vida

a ética em seguir girando

na potência da alegria 

dos encontros


I Photographed the Spinning Earth 

(dedicated to Márcio D'olne Campos)


The earth was spinning

day and night

Everything on it revolved together

The sea breeze blew

The sky mooed itself

southing the dreams

In the twilight, we are unique

At sunrise we are others

Conscience shines:

aboard we are

on a spaceship

Everything spins!

Truth bites

the tail of contradiction

Innovations on one side

Translations on the other

Crises cast light

on hidden depths and conflicts

The world overturns

Change blossoms

I don't believe in turnabouts

but they arrive every day

The Ouroboros is our pattern

of poetic translation

In contradictions and ambiguities

contingent truths I see

in the phases of the moon

in the phases of life

the ethics of keeping spinning

in the power of joy

of encounters



Fotografié la Tierra girando

(para Márcio D'olne Campos)


La tierra giraba

de día y de noche

Todo en ella giraba junto

Soplaba la brisa marina

Se aluaba el cielo

surcando los sueños

En el crepúsculo, somos únicos

Al nacer el sol somos otros

Brilla la conciencia:

embarcados estamos

en una nave espacial

¡Todo gira!

La verdad muerde

la cola de la contradicción

Innovaciones de un lado

Traducciones del otro

Las crisis arrojan luz

sobre recónditos y conflictos

El mundo se voltea

El cambio florece

No creo en los giros inesperados

pero llegan todos los días

El Ouroboros es nuestro patrón

de traslación poética

En contradicciones y ambigüedades

verdades contingentes veo

en las fases de la luna

en las fases de la vida

la ética en seguir girando

en la potencia de la alegría

de los encuentros



J'ai photographié la Terre qui tourne

(pour Márcio D'olne Campos)


La terre tournait

de jour et de nuit

Tout en elle tournait ensemble

La brise marine soufflait

Le ciel se lunait

sillonnant les rêves

Au crépuscule, nous sommes uniques

Au lever du soleil nous sommes autres

La conscience brille:

embarqués nous sommes

dans un vaisseau spatial

Tout tourne!

La vérité mord

la queue de la contradiction

Innovations d'un côté

Traductions de l'autre

Les crises jettent de la lumière

sur des recoins et des conflits

Le monde chavire

Le changement fleurit

Je ne crois pas aux retournements

mais ils arrivent tous les jours

L'Ouroboros est notre modèle

de translation poétique

Dans les contradictions et les ambiguïtés

des vérités contingentes je vois

dans les phases de la lune

dans les phases de la vie

l'éthique de continuer à tourner

dans la puissance de la joie

des rencontres



Ich habe die rotierende Erde fotografiert

(für Márcio D'olne Campos)


Die Erde drehte sich

Tag und Nacht

Alles auf ihr drehte sich mit

Die Meeresbrise wehte

Der Himmel monte sich

Die Träume durchpflügend

In der Dämmerung sind wir einzigartig

Bei Sonnenaufgang sind wir andere

Das Bewusstsein leuchtet:

eingeschifft sind wir

in einem Raumschiff

Alles dreht sich!

Die Wahrheit beißt

in den Schwanz des Widerspruchs

Innovationen auf der einen Seite

Übersetzungen auf der anderen

Krisen werfen Licht

in versteckte Winkel und Konflikte

Die Welt kippt um

Der Wandel blüht

Ich glaube nicht an Wendungen

aber sie kommen jeden Tag

Der Ouroboros ist unser Muster

poetischer Übertragung

In Widersprüchen und Mehrdeutigkeiten

kontingente Wahrheiten sehe ich

in den Mondphasen

in den Lebensphasen

die Ethik, weiterzudrehen

in der Kraft der Freude

der Begegnungen


domingo, 21 de junho de 2026

O Menino de Balsas

O menino corria atras de pássaro

Depois correu atrás de avião

Sonhou com a grande cidade

À beira-mar

Fundada por franceses

De Graça Aranha e Aluísio Azevedo

Sonhou com o diploma

No primário, foi aluno de Joca Rego


Depois correu ao trabalho, ao carro

À vida de adulto responsável

Sonhou com uma família

Um país melhor sonhou

Para os filhos

Sonhou em construí-lo

Colocou cimento na nova estrutura

Ainda no rascunho da construção


Sonhou um país de futuro

Diferente do general Charles de Gaulle

Acreditou que era possível

Para desacreditar tantas vezes

E tornar a acreditar vivendo

A alegria dos filhos

Para cada um criou um avião

De imagens oníricas


Que como nuvens, voaram pelo ar

Ele mesmo se descobriu hoje

Parte do sonho do filho

Que chora em um junho já distante 

E tão perto do corpo

Onde pulsa a grata vida

Que fez por amor

Agora é sonho vivido


O amigo invisível

A mão de dedos longos

Que pousa no peito

E acalma quando acelera

o pulso, o ritmo do mundo

É de gratidão a cor 

O som destas lágrimas

É de amor


A música deste rio

Que corre em mim

Brota das nascentes 

do rio Balsas

Onde jazem os restos de meu pai:

Sonho de peixe

Sonho de planta

Sonho das águas




domingo, 31 de maio de 2026

A Arte de ter Razão

Para que serve a filosofia?

Para ter razão?

Razão é algo que se possa ter?

Ou nasce mesmo, da interação

seja com o que for:

coisa, crespúsculo, pássaro


Razão não é algo para se ter

Filosofia deveria ser para o viver

melhor, mais longe

distante do que diminui a humanidade

de suas naturais habilidades 

de perceber o mundo como seu


A arte de ter razão é grande perda

de tempo 

e potência criativa

no que é da ordem do amor

A vida que explode agora e além

em miriades de detalhes


Paul Valéry ensinava

que o desconhecido está

no vagar do olhar

daquele que se dispoe a viver 

o conhecido de outra mirada

Como racionalizar a observação?


Tão pessoal quanto poética

Que arte é essa?

Venda de livros?

Construção de narrativas?

Convencimento e dominação?

Um enorme esforço para escanear 


as estratégias de enganar 

pela linguagem?

A arte de ter razão é um afeto triste

passivo quando

arte é viver o não vivido

razão é ver através do imaginário

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Edgar Morin (1921-2026)

Foi um susto...

O chão se abre ou foi o céu?

Aos 104 anos de idade

Edgar vai olhar de cima

aquilo que observava por dentro


A complexidade que vem

por todos os lados

Da resistência francesa ao nazismo

dos clarividentes livros do Método

à prosa amorosa para descrever as crises


deixa-nos um guia 

para reconhecer na poesia e na literatura

as máquinas para viver o que foi tecido

junto e misturado

Sua inteligência hologramática


não artificial 

dialogava com cada conceito

como quem celebra um novo vizinho

que acaba de se mudar

para a nova casa do conhecimento 



quinta-feira, 2 de abril de 2026

Minha História da Arte

Lembro bem do nome dele

Aliás, seu segundo nome

Martins: meu professor de história

Talvez, ele tenha notado

a transfiguração em meus olhos

com as histórias da idade média


Transportava-me

ao longe da sala de aula

Um dia, disse:

"Se queres a história da humanidade..."

Até aquele momento o que ensinava 

era a história dos impérios


"Se dedique à história da arte"

A frase se tornou um mantra

voltando à mente

sempre que a história das revoluções

deixava-me sem esperanças

Me distânciei da arte


Seus subjetivismos

Sua falta de compromisso

com a verdade dos fatos

Fazia poesia escondido

Ia a museus sozinho

Interpretar uma obra de arte


era algo secreto:

um jogo pessoal

como brincar de palavras cruzadas

O mundo concreto

pode ser percebido diferentemente

por meios os mais diversos 


no rastro dos interesses

como na arte

tanto quanto no poder

Mister é entender

quem percebe e como

Depois de fazer as pazes


com o sentido da vida

minha primeira crise existência

Declarei-me poeta 

Veio então a segunda crise existêncial:

se o sentido da vida é o amor

como compartilhar o mundo


se o vemos de modos diferentes?

Enquando os poderes nos interpretam

e entregam soluções a la carte

que nos aprisionam

que contextos e biombos são estes

que nos acorrentam


nos colocam entre a satisfação

e o enfado? 

Que cárceres são esses

que apesar de termos as chaves

permanecemos sequestrados

Escondidos os segredos


nos tons e sobre-tons

cores complementares escondidas

para iluminar um caminho

sutil para a liberdade

Assim como Caravaggio 

que mostrou uma saída 


do medieval para as luzes


Carta a Honestino Guimarães

Nossas mães se conheciam Eu passei pela UnB como um raio querendo qual grego fora de época sorver tudo da ágora universitária Eu, o pequen...